Voo atrasado ou cancelado:
o que você pode exigir
Da assistência obrigatória dentro do aeroporto ao pedido de indenização em juízo — e por que a causa do atraso passou a pesar tanto depois da decisão do STF no Tema 1.417.
Analisar Meu Caso explicodireito.com.brAtualizado em 12 de outubro de 2026. Este texto considera a Resolução ANAC n.º 813/2026, que altera a Resolução n.º 400/2016 e está em vigor a partir de 26 de outubro de 2026. Para voos realizados até 25 de outubro de 2026, valem as regras anteriores, indicadas abaixo quando forem diferentes.
O painel muda para atrasado, depois para cancelado, e ninguém explica nada. A fila do balcão não anda, a conexão do outro lado já era, a reunião ou o casamento a que você ia chegar ficou para trás. Nessa hora, a pergunta que interessa é bem prática: o que a companhia é obrigada a fazer agora, e o que dá para cobrar depois.
As duas respostas não são a mesma coisa. Uma parte dos seus direitos é imediata e independe de processo: alimentação, hotel e traslado, reacomodação ou reembolso — tudo isso está na Resolução n.º 400/2016 da ANAC, alterada pela Resolução n.º 813/2026, e vale no próprio aeroporto. Outra parte é indenizatória e depende de prova, de circunstâncias e, hoje, também da causa do atraso.
Este texto separa esses dois campos, explica o que mudou entre o fim de 2025 e 2026 com a decisão do Supremo Tribunal Federal no Tema 1.417 — que suspendeu parte dos processos no país inteiro — e mostra com honestidade as situações em que o passageiro reclama, mas o direito não existe ou é bem menor do que se imagina.
Por que a causa do atraso virou a pergunta mais importante
Durante anos, quase toda ação de passageiro contra companhia aérea foi decidida pelo Código de Defesa do Consumidor, que trata a falha na prestação do serviço com responsabilidade objetiva: não se discute culpa, discute-se o defeito e o dano. Esse quadro está em revisão.
Em 26 de novembro de 2025, o ministro Dias Toffoli determinou a suspensão nacional dos processos que discutem a responsabilidade civil das companhias aéreas por cancelamento, alteração ou atraso de voo por caso fortuito ou força maior. A decisão foi proferida no ARE 1.560.244, que originou o Tema 1.417 da repercussão geral. A questão a ser decidida pelo STF é qual norma prevalece nessas hipóteses: o Código Brasileiro de Aeronáutica ou o Código de Defesa do Consumidor.
A Resolução ANAC n.º 813/2026 incluiu na Resolução 400 o art. 25-B, segundo o qual a responsabilidade civil do transportador por atraso, cancelamento, interrupção do serviço ou preterição observa a legislação e os tratados internacionais vigentes, não sendo imputável ao transportador nos casos fortuitos ou de força maior, conforme o Código Brasileiro de Aeronáutica. Por ser norma administrativa, a resolução não decide a controvérsia do Tema 1.417, que segue pendente no STF.
Em 10 de março de 2026, ao acolher embargos de declaração — decisão comunicada aos tribunais em 12 de março —, o Supremo esclareceu o alcance dessa suspensão — e o esclarecimento é o que mais importa para quem tem um caso concreto hoje. A paralisação alcança apenas as ações ligadas às hipóteses de fortuito externo ou força maior do art. 256, § 3.º, do Código Brasileiro de Aeronáutica, como fechamento de aeroporto por determinação de autoridade, restrições de pouso e decolagem por condições meteorológicas adversas e indisponibilidade da infraestrutura aeroportuária.
Seguem tramitando normalmente, entre outras, as ações que discutem:
- atraso, cancelamento ou alteração por motivo operacional da própria empresa, como manutenção não programada, troca de aeronave ou remanejamento de malha;
- preterição de embarque, o chamado overbooking;
- extravio, avaria ou atraso na entrega de bagagem;
- falta de assistência material durante a espera;
- outras falhas na prestação do serviço.
Na prática: se o seu voo caiu por decisão da empresa, o caminho continua aberto. Se caiu por temporal, fechamento de aeroporto ou determinação de autoridade, o processo pode ficar sobrestado até o Supremo julgar o mérito do Tema 1.417 — que, até 12 de outubro de 2026, ainda não havia sido decidido.
O que a Resolução 400 da ANAC garante: assistência, reacomodação e reembolso
A Resolução n.º 400/2016 da ANAC é uma norma administrativa: ela não fixa indenização por dano moral, mas cria obrigações que a companhia precisa cumprir na hora, sem que você tenha de pedir nada a um juiz. A chamada assistência material é escalonada conforme o tempo de espera. Para voos a partir de 26 de outubro de 2026, na redação dada pela Resolução n.º 813/2026:
- espera superior a 2 horas: alimentação adequada, por meio de crédito para alimentação, refeição ou solução equivalente;
- espera superior a 4 horas: hospedagem, quando houver necessidade de pernoite, além do transporte de ida e volta entre o aeroporto e o local de hospedagem. Quem reside na localidade do aeroporto de origem pode receber, no lugar do hotel, o transporte gratuito de ida e volta entre o aeroporto e sua residência.
Para voos até 25 de outubro de 2026, vale o texto anterior: facilidades de comunicação, como acesso a internet e telefone, com espera superior a 1 hora; alimentação, por refeição ou voucher individual, com espera superior a 2 horas; e hospedagem, em caso de pernoite, e traslado de ida e volta com espera superior a 4 horas. A obrigação de oferecer facilidades de comunicação foi revogada pela Resolução 813/2026, e o novo texto passou a prever expressamente que essa assistência é assegurada no território nacional.
Passageiro com deficiência ou com mobilidade reduzida e seus acompanhantes têm regra mais protetiva: a hospedagem é devida independentemente de pernoite, salvo quando puder ser substituída por acomodação adequada às suas necessidades e houver concordância expressa do passageiro ou do acompanhante.
A Resolução 813/2026 criou também uma alternativa excepcional: quando limitações da infraestrutura do aeroporto, indisponibilidade comprovada de fornecedores locais ou outra situação emergencial imprevisível impedirem o fornecimento da assistência, a companhia pode reembolsar as despesas necessárias, razoáveis e comprovadas que o passageiro tiver com alimentação, transporte e hospedagem, em até 7 dias da apresentação dos comprovantes (art. 27-B). Por isso, guarde as notas. Em situações excepcionais que comprometam de forma generalizada o transporte aéreo, a ANAC pode ainda fixar, por tempo determinado, condições específicas para essa assistência (art. 27-A).
A companhia deve informar o passageiro de forma clara, acessível e tão logo tenha conhecimento do atraso, cancelamento, interrupção ou preterição, inclusive por canais digitais, mantendo a informação atualizada: a situação e a nova previsão de partida, as alternativas de reacomodação, reembolso ou outro transporte e os procedimentos para obter a assistência material (art. 20). Nos canais digitais, deve constar a data e o horário da última atualização. Para voos até 25 de outubro de 2026, a norma exigia que a previsão de partida fosse atualizada, no máximo, a cada 30 minutos. O motivo do problema deve ser informado por escrito sempre que o passageiro solicitar. Silêncio no balcão também é falha de informação.
Passadas 4 horas de atraso, e também nos casos de cancelamento, interrupção do serviço e preterição, a norma obriga a empresa a oferecer três alternativas, e a escolha é do passageiro, não da companhia:
- reacomodação, em voo próprio ou de outra empresa, na primeira oportunidade ou em data e horário de sua conveniência;
- reembolso do valor pago;
- execução do serviço por outra modalidade de transporte, por exemplo o trecho rodoviário.
Um ponto que gera muita confusão: aceitar hotel, comida ou reacomodação não significa dar quitação nem renunciar a nada. A assistência material é obrigação mínima do contrato, não é acordo. A Resolução 813/2026 deixou isso expresso: essa obrigação não se confunde com o dever de reparação civil por eventual dano, e o seu cumprimento não implica reconhecimento de culpa ou responsabilidade da companhia (art. 26, parágrafo único). O que ela faz, isso sim, é influir na avaliação do dano moral, porque um passageiro bem assistido e reacomodado rapidamente sofre um transtorno diferente daquele que passou a madrugada sentado no chão do saguão sem informação.
Vale registrar que a Resolução 400 foi alterada pela Resolução n.º 813/2026, publicada no Diário Oficial da União em 25 de setembro de 2026 e em vigor a partir de 26 de outubro de 2026. O texto aplicável ao seu caso é o vigente na data do voo.
Preterição e overbooking. Preterição, na linguagem da ANAC, é a situação em que a companhia deixa de transportar passageiro que se apresentou para embarque no voo originalmente contratado. O overbooking, a venda de mais assentos do que a aeronave comporta, é a hipótese mais conhecida, mas não a única: também há preterição quando a empresa faz o downgrade indevido ou embarca outra pessoa no seu lugar.
Antes de preterir alguém, a norma manda a companhia procurar voluntários dispostos a viajar depois em troca de compensação negociada. Quem aceita voluntariamente e recebe o que foi combinado não é considerado preterido — por isso, pense antes de assinar o termo no balcão.
Configurada a preterição, além das alternativas de reacomodação, reembolso ou outra modalidade de transporte, a Resolução 400 prevê compensação financeira fixada em DES (Direito Especial de Saque, unidade de conta do Fundo Monetário Internacional, convertida em reais na data do pagamento):
- 250 DES em voo doméstico;
- 500 DES em voo internacional.
Essa compensação é administrativa e independe de prova de prejuízo. Ela não se confunde com indenização por dano material ou moral, que continua sendo discutida em juízo conforme o caso.
Dano moral não é automático — e isso não é novidade
É comum ler que qualquer atraso acima de 4 horas gera indenização por dano moral. Não é assim que os tribunais superiores vêm tratando o tema, e essa é provavelmente a informação mais importante deste texto.
O Superior Tribunal de Justiça já afastou, em 2018, a tese do dano moral presumido (o chamado dano in re ipsa) em atraso de voo internacional, no julgamento do REsp 1.584.465-MG, relatado pela ministra Nancy Andrighi na Terceira Turma: o dano precisa ser demonstrado, não decorre do simples descumprimento do horário. Em 2024, ao julgar o AgInt no AREsp 2.150.150-SP, a Quarta Turma reforçou que os danos morais por atraso ou cancelamento devem ser aferidos à luz das peculiaridades da atividade aérea, e não como consequência automática do inadimplemento contratual.
No plano legislativo, a Lei n.º 14.034/2020 acrescentou o art. 251-A ao Código Brasileiro de Aeronáutica, condicionando a indenização por dano extrapatrimonial decorrente de falha na execução do contrato de transporte à demonstração da efetiva ocorrência do prejuízo e de sua extensão pelo passageiro.
Isso não significa que ninguém mais recebe. Significa que o caso se ganha (ou se perde) na circunstância concreta. Costumam pesar a favor do passageiro, entre outros elementos:
- a duração real do atraso e a ocorrência de pernoite forçado;
- a ausência ou má qualidade da assistência devida, especialmente com criança, idoso ou pessoa com deficiência;
- a perda de compromisso relevante e comprovável: conexão, cruzeiro, congresso, prova, cirurgia, evento familiar;
- a falta de informação clara e o tratamento recebido no aeroporto;
- a necessidade de gastos não previstos e a demora na solução.
Sem nenhum desses elementos, um atraso resolvido com assistência adequada tende a ser tratado como aborrecimento contratual, sem indenização extrapatrimonial.
Voo internacional: até onde vai a Convenção de Montreal
Em voo internacional entram em cena as Convenções de Varsóvia e de Montreal, tratados que limitam o valor devido pelo transportador. No Tema 210 da repercussão geral, o STF fixou que, nos termos do art. 178 da Constituição, essas normas internacionais prevalecem sobre o Código de Defesa do Consumidor.
O ponto que muita gente ignora é o limite dessa tese. Ao julgar embargos de declaração no mesmo Tema 210, o Supremo acrescentou expressamente que o entendimento não se aplica às hipóteses de danos extrapatrimoniais. Traduzindo:
- dano material em voo internacional (bagagem, gastos comprovados, prejuízos patrimoniais decorrentes do atraso): sujeito aos limites das Convenções;
- dano moral: fora desses limites, avaliado pelo direito interno, com o Código de Defesa do Consumidor.
A distinção também repercute no prazo. A Convenção de Montreal fixa prazo de dois anos para a ação de responsabilidade, enquanto o Supremo decidiu que o pedido de dano moral em voo internacional pode ser ajuizado no prazo de cinco anos. Para voo doméstico, aplica-se o prazo de cinco anos do art. 27 do Código de Defesa do Consumidor.
Como os prazos são diferentes conforme o tipo de dano e de voo, deixar o caso amadurecer é arriscado. Se o seu voo era internacional, o tempo joga contra mais rápido do que você imagina.
Quando o direito não existe (ou é bem menor do que parece)
Nem todo transtorno de aeroporto vira indenização. Ser realista aqui evita processo perdido e frustração:
- Fortuito externo comprovado. O art. 256, § 3.º, do Código Brasileiro de Aeronáutica trata como caso fortuito ou força maior as restrições de pouso e decolagem por condições meteorológicas adversas impostas pelo controle do espaço aéreo, a indisponibilidade da infraestrutura aeroportuária, as determinações de autoridade pública e as medidas decorrentes de pandemia. Nessas hipóteses, hoje, além da discussão sobre a exclusão da responsabilidade, o processo ainda pode ficar suspenso por força do Tema 1.417 do STF. Atenção: a alegação genérica de mau tempo não basta — a empresa precisa comprovar a restrição, e há decisões que rejeitam a excludente quando outros voos decolaram normalmente no mesmo período.
- Atraso curto e bem assistido. Uma ou duas horas de espera, com informação e alimentação, dificilmente sustentam dano moral.
- Prejuízo sem prova. Dano material exige recibo, nota, extrato. Sem comprovante de hotel, transporte, diária perdida ou nova passagem, não há o que ressarcir.
- Compromisso perdido sem demonstração. Alegar que perdeu uma reunião importante, sem qualquer documento que comprove o compromisso e a perda, enfraquece muito o pedido.
- Culpa do passageiro. Chegar depois do fechamento do check-in, apresentar documento inválido, no-show no trecho de ida, bagagem fora do padrão contratado: a falha não é da companhia.
- Voluntário compensado. Quem aceita ceder o assento mediante compensação negociada não é preterido e, em regra, não faz jus à compensação da preterição.
- Remarcação ou desistência do próprio passageiro. As regras tarifárias do bilhete valem, ressalvadas as hipóteses de arrependimento previstas em norma.
- Tempo demais. Passado o prazo prescricional aplicável, o direito de ação se perde, ainda que a razão estivesse com você.
Também é preciso dizer: valores de indenização variam bastante entre juízos e tribunais e dependem da prova produzida. Quem promete valor certo antes de ver a documentação está adivinhando.
O que fazer, passo a passo
- Exija a assistência no local e registre o pedido. Peça voucher, hotel e traslado no balcão. Se recusarem, guarde protocolo, nome do atendente, horário e, se possível, grave ou fotografe.
- Fotografe o painel de voos e as telas do aplicativo. Registre o horário previsto, o horário real e a mensagem de atraso ou cancelamento. Esse é o documento que some depois.
- Guarde e-mails, SMS e notificações do aplicativo. Eles mostram quando e como você foi avisado — ou que não foi.
- Escolha conscientemente entre reacomodação, reembolso e outra modalidade. A opção é sua. Anote o que foi oferecido e o que foi negado.
- Junte todos os comprovantes de gasto extra. Hotel, alimentação, transporte, nova passagem, diária de hospedagem perdida no destino, carro alugado que não foi usado.
- Reclame formalmente pelos canais oficiais. Primeiro na companhia, para gerar número de protocolo, e depois na plataforma consumidor.gov.br. Muitos casos se resolvem aí, e o histórico serve de prova depois.
- Verifique se a sua hipótese está entre as suspensas. Se o problema decorreu de motivo operacional da empresa, overbooking, bagagem ou falta de assistência, a ação segue seu curso normal.
- Fique atento ao prazo. Identifique se o voo era doméstico ou internacional e se o pedido é de dano material ou moral, porque os prazos são diferentes.
- Reúna a documentação pessoal e do voo — bilhete, cartão de embarque, documentos de identificação — antes de procurar orientação jurídica sobre a viabilidade do caso.
O que é possível buscar
Dependendo da situação e da prova disponível, o passageiro pode buscar, isolada ou cumulativamente:
- cumprimento da assistência material devida, ou o ressarcimento do que gastou por conta própria diante da omissão da companhia;
- reembolso do valor pago pelo bilhete, quando essa for a alternativa escolhida;
- indenização por danos materiais efetivamente comprovados: nova passagem, hospedagem, transporte, diárias e serviços perdidos no destino;
- compensação financeira por preterição, nos valores em DES previstos na Resolução 400 da ANAC;
- indenização por dano moral, quando as circunstâncias concretas demonstrarem lesão que ultrapassa o mero aborrecimento contratual.
Causas de menor valor podem tramitar nos Juizados Especiais Cíveis, com limite de 40 salários mínimos; até 20 salários mínimos, a lei dispensa a presença de advogado, embora a análise técnica costume fazer diferença na definição dos pedidos e da prova. A viabilidade de cada pedido depende da documentação e do enquadramento do caso, inclusive quanto à causa do atraso.
Publicado em 20 de agosto de 2026. Última revisão em 12 de outubro de 2026, considerando a Resolução ANAC n.º 813/2026, em vigor a partir de 26 de outubro de 2026. Este texto tem finalidade informativa e não substitui a análise do caso concreto.
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